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13 de novembro de 2011

Uma cereja traz outra cereja

"Uma cereja traz outra cereja, um cavalo trouxe um tio, um tio irá trazer….” (p.28).

As conversas são como cerejas é o adágio que subjaz a esta afirmação do narrador, em tom coloquial com o leitor, tom que percorre As Pequenas Memórias, como quem conta histórias vividas ou recordadas (“…às vezes pergunto-me se certas recordações são realmente minhas, se não serão mais do que lembranças alheias de episódios de que eu tivesse sido actor inconsciente…” pp. 63-64). E assim o leitor é conduzido à pobreza extrema do narrador, que dormia no chão, na companhia de baratas e partilhava um prato de sopa com a mãe, que por sua vez penhorava os cobertores no verão e os levantava quando o frio apertava; às proezas das suas venturas e desventuras amorosas e das amizades e crueldade de colegas de escola; à infância sofrida pela doença e morte do irmão Francisco; à precocidade na leitura e ao seu fascínio pela escrita quando os seus “dedos puderam, finalmente, tocar essa pequena maravilha das técnicas de escrita mais actualizadas” (p.64), numa ardósia.

 Autodisciplinando-se por vezes: “Voltemos ao fio do relato” (p. 102), o narrador conduz-nos por lugares e condições menos visitados pelos leitores de Saramago. Num estilo que o distancia da densidade psicológica das personagens de Memorial do Convento, não lhe falta contudo uma pitada de ironia, como quando relata que em casa dos vizinhos Barata “não havia livros, um só havia” de cujas histórias não acreditava fazerem “grande caso, se é que algum fizeram” e que a vizinha Conceição, “…dona desta jóia literária absoluta…” guardava A Toutinegra do Moinho “…como um tesouro numa gaveta da cómoda, embrulhado em papel de seda, com cheiro a naftalina” (p.99).

Talvez menos frequente hoje este cenário, quem dera que esta crítica social se já não aplicasse atualmente…

Mª Carla Crespo

10 de novembro de 2011

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